As regras americanas para acesso a chips de inteligência artificial deveriam trazer clareza, mas têm gerado apenas incerteza. A estrutura da administração Biden, que deveria entrar em vigor em maio de 2025, foi revogada pela administração Trump, que prometeu uma substituição que nunca veio. Em março deste ano, outra proposta foi retirada.
Chris McGuire, do Council on Foreign Relations, resume a situação: “A administração tem uma política contraditória sobre isso.” As regras de difusão de IA são centrais na disputa global por acesso à computação avançada e sistemas de IA de ponta.
Teoricamente, as regras visam a segurança nacional, impedindo que chips avançados cheguem a adversários e mantendo os EUA e seus aliados à frente. Na prática, empresas e governos estrangeiros precisam improvisar suas estratégias.
Apesar de a estrutura da era Biden ainda existir legalmente, na prática, a atual administração age como se não existisse. Isso força exportadores e governos a tentar decifrar a estratégia industrial americana a partir de posts e declarações esporádicas. “Não faço ideia de qual é o objetivo deles”, diz Wolf, indicando a falta de substância.
O objetivo teórico da política de difusão de IA dos EUA é garantir que a maior parte da computação de IA global esteja em data centers confiáveis. Chips são o gargalo físico para sistemas avançados, conferindo alavancagem política. No entanto, a política atual parece buscar os benefícios do controle sem a estrutura administrativa necessária para exercê-lo.
Alexander Capri, da Universidade Nacional de Singapura, sugere que os EUA buscam contenção e captura de plataforma. Em vez de negar acesso, a estratégia é tornar os EUA indispensáveis, construindo dependência na “pilha tecnológica americana”. Isso resulta em mais parcerias e investimentos globais, ligando países ao ecossistema de IA liderado pelos EUA por necessidade comercial.
Atualmente, fornecedores de chips de IA dos EUA detêm enorme poder. “A alternativa aos chips de IA dos EUA não são chips chineses de IA. São nenhum chip de IA”, diz McGuire. A Nvidia, por exemplo, tem 81% do mercado de chips para data centers. Esse poder permite aos EUA moldar o mercado e a arquitetura global de IA.
A alavancagem dos EUA é eficaz apenas com coerência, algo que falta atualmente. A incerteza dificulta o planejamento futuro para empresas que consideram investimentos bilionários em capacidade estrangeira. A qualquer momento, uma nova decisão pode embargar projetos, criando um cenário imprevisível.
Embora o mundo ainda dependa de chips americanos, essa janela não durará para sempre. A importância estratégica da IA eventualmente forçará Washington a ter uma política clara. Atualmente, a ausência de um processo decisório claro – sem discursos, sem contato governamental, sem conferências – significa que não há uma doutrina definida. Isso deixa aliados e investidores sem saber para onde a cadeia de suprimentos mais importante da tecnologia está caminhando.